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Luiz Roberto Nascimento Silva

Jornal O Tempo
06 de fevereiro de 2006

Realidade dos inconfidentes em Versos

O ex-secretário de Cultura Luiz Roberto Nascimento Silva tece pensamentos sobre Vila Rica em livro de poema


A inconfidência Mineira sempre fascinou Luiz Roberto Nascimento Silva. Mas no dia em que conheceu a casa do padre Toledo, em Tiradentes, versos começaram a nascer em sua mente e os primeiros passos para a confecção de “O Alfabeto da Devassa” foram dados. Quatro anos depois, o escritor se deparou com um livro pronto, que trazia impressões sobre a trajetória dos inconfidentes e as questões políticas que os envolviam.

“Os temas fundamentais da Inconfidência sempre me foram muito próximos porque acredito que este foi o momento mais organizado da história brasileira. Esses homens nos ofereceram um sofisticado projeto de nação. Existem outros momentos interessantes na história do nosso país, mas nada que se aproxime da riqueza desse movimento mineiro”, conta Nascimento Silva, que atua como advogado e trabalhou como secretário de Estado de Cultura no governo Aécio Neves e ministro da Cultura no governo Itamar Franco.

Um dos aspectos retratados em “O Alfabeto da Devassa” pelo autor é a efervescência da movimentada Vila Rica, que atraía artistas e comerciantes de várias partes do império português, interessados no crescimento econômico oferecido pela mineração. “No século XVIII, Ouro Preto era uma cidade tão rica quanto Nova York e apresentava todo o esplendor do barroco mineiro, tanto na arquitetura quanto na música. Resolvi entender como era essa sociedade num momento em que sofria o pacto colonial enquanto Portugal já administrava sua dependência”, explica.

De acordo com Nascimento Silva, a Inconfidência é um dos movimentos mais comentados e estudados não apenas por sua organização, mas também por sua riqueza em documentação. Quando Felipe dos Santos – conhecido pela famosa revolução contra a derrama, imposto extraordinário para compensar a diminuição na arrecadação da Coroa – morre por uma decisão arbitrária do conde de Assumar, surge um constrangimento geral na corte portuguesa porque o ato de se condenar à morte ou oferecer a misericórdia é exclusivo ao rei. Meio século depois, quando nasce a Inconfidência, a corte manda seus melhores juristas a Ouro Preto para evitar qualquer outro problema. “Eles comentam detalhadamente todo o inquérito, que durou de 1789 a 1792. Por isso esse é o movimento mais documentado na história e essa é a origem dos Autos da Devassa”, conta o autor.

Cecília Meirelles

Desde a hora em que o livro começou a surgir em sua mente, o autor já sabia que seria inevitável o cortejo com uma das mais importantes obras de Cecília Meirelles, “O Romanceiro da Inconfidência”. Tanto que ,assim que terminou “O Alfabeto da Devassa”, o autor pegou o livro de Cecília para verificar se havia repetido suas ideias. “Vi que temos pontos de vista diferentes. A incomparável Cecília escreveu sua obra a partir de uma visão de 1955 e concentra o texto na cênica dos personagens. Já “O Alfabeto” traz mais o processo econômico”, diz o escritor, revelando que cada autor apresenta o pensamento de seu tempo ao falar de uma história já clássica.

Com um enfoque inspirado até mesmo por seu conhecimento profissional – ele advoga na área tributarista -, o autor denuncia características semelhantes entre a época de Tiradentes e a contemporaneidade, mostrando que pouco mudou na política realizada em solo brasileiro. “No livro abordo questões fundamentais que influenciaram a Inconfidência, como a tributação extorsiva, a dependência do mercado externo, a ausência de um projeto de nação, que são problemas que continuam a existir até hoje. Mais do que relembrar o passado, procuro refletir o presente para um aprimoramento do futuro”, especula o escritor.

Sobre o personagem mais discutido e estudado entre os inconfidentes, Tiradentes, Nascimento Silva diz que o retratou de uma forma crescente, como um homem com pouca relevância durante as discussões das reuniões clandestinas dos revolucionários, mas que se tornou uma grande figura dentro da cadeia, quando viu seus companheiros se definharem. “no final do livro, ele se avoluma como a grande liderança desse processo. É um líder que surge dentro das condições político-econômicas que conduzem aquele momento. Tomás Gonzaga e Cláudio Manoel poderiam ter tido esse papel, mas se mostraram titubeantes”.


Agenda – “O Auto da Devassa”, de Luiz Roberto Nascimento Silva, editora Rocco, 116 págs.


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